A "Grande Mídia" surge com a interessante proposta de mostrar os dois lados de uma mesma história, ser imparcial e prezar principalmente e absolutamente pela verdade acima de tudo. Diz-se ser a responsável pela veiculação da notícia para o público, alegando ser uma aliada e um instrumento contra a alienação das massas. Por mais ironia que isso pareça, e por mais paradoxal também, ela parece se destrinchar e se desenrolar no exato papel inverso ao que ela prega. A mídia, na verdade, tornou-se uma fomentadora das desigualdades. Em sua "imparcialidade" acaba por tender ao lado que mais lhe favorece, ou que favorece a alguém interessante.
Um caso recente que pode ser tido como um desses destaques é o caso do MC Biel, acusado de assédio a uma repórter do portal IG de notícias. O artista, em sua entrevista (gravada), humilha e ofende a repórter com frases como:
"Mina, se eu te pego eu te quebro no meio. Então você não pode me falar nada."
A postura de Biel, no entanto, não é incomum. É consequência do machismo já inerente em nossa sociedade, que é reproduzido por tantas vezes que se torna uma banalidade, mas o que não lhe tira a culpa. A mulher é por muitas vezes tida como objeto, tanto no quotidiano desses artistas quanto em diversas músicas que enaltecem esse conceito. Biel e tantos outros não fazem idéia de como essas palavras podem mudar a vida de alguém, ou feri-la, não são inconseqüentes. Ele se retratou, mas de maneira forçada. Estava claro que ele não se desculpou por pensar que estava errado, ou por arrependimento, mas sim, para melhorar a sua imagem na imprensa. Isso pode ser comprovado pela sua fala ainda durante o texto que foi divulgado, afirmando não ser machista.
“Nem homem me considero ainda pra ser prepotente ao ponto. Sou um menino, menino que brinca, menino sem papas na língua, menino que sorri... Infelizmente, a felicidade acompanhada do sucesso incomoda, coisa que não deveria... Tudo não passou de um mal entendido e já está tendo as medidas cabíveis”, completou o cantor, de 21 anos.
Para complementar a sua fala, seu empresário também afirmou ser uma brincadeira. Não é brincadeira, Biel... e isso já está mais do que provado de diversas formas ao logo da história.
Esse é o caso em que se pode provar também como nenhum sistema opressor sobrevive sem que o oprimido seja, por vezes, cúmplice, mesmo sem que se saiba, estando contaminados pela ideologia do dominador, disseminadas pelos próprios veículos midiáticos e de socialização. As fãs do artista, que o defenderam cegamente, lançaram frases e campanhas na rede, tais quais:
“Só reclamou porque é mal comida”
“Se fosse eu eu estaria dando graças a deus de o Biel estar me assediando”
“Que Gabriel não caia diante dessa situação, que só aconteçam coisas lindas e positivas na vida dele e de sua família”
E para provar que não são apenas os indivíduos em si que possuem essa visão, mas que ela está intrínseca à sociedade em geral, adormecida ou não, o portal IG, que havia prometido protegê-la, pois “tivera uma ação memorável e exemplar ao denunciá-lo”, não cumpriu o combinado. O IG despediu a funcionária, afastada, ainda abalada com a situação, com a justificativa de corte de custos. O problema é que naquela semana não foi registrada mais nenhuma demissão, então como explicar o por quê dessa ação? Qual corte de custos despede apenas um funcionário ou, no caso, uma funcionária que sofreu assédio no trabalho?
Para agravar ainda mais o caso e, sinceramente, deixar o lado do IG ainda mais absurdo, na semana seguinte outra demissão foi registrada. Foi a vez da editora do caso, que incentivou a repórter a ir à delegacia e denunciar o artista, por ser algo inaceitável. Coincidentemente, as duas únicas funcionárias envolvidas diretamente no caso, em apenas duas semanas foram removidas as pressas da equipe IG, que agora conta apenas com homens. O IG vai contra a proposta da grande mídia em sua essência, de ser imparcial. Tendeu em favor de MC Biel, e assim tenderá por muitas vezes. Por isso se há de combater o machismo, para que a vítima, ou seja, quem sofreu, não seja culpada e punida.
Artigo publicado por Guilherme Soares
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